Maturidade à vista
Meus pais foram embora há dois dias. Depois de terem passado dois meses em nossa casa aqui em São Paulo, chegou o dia de eles voltarem pra casa. Estranhamente, eu não senti tristeza nem medo. Meu sentimento foi de gratidão. Diferente do que eu senti após o nascimento do Davi (2023), hoje eu sinto leveza e paz por estar de volta aos meus dias rotineiros e à minha vida comum. Os dias com meus pais foram essenciais, não me entenda mal. Eu pude descansar bastante no primeiro mês após o nascimento da Ester, e me recuperar do turbilhão hormonal do parto e da exaustão das muitas madrugadas em claro. Tive um suporte fundamental no cuidado com meus filhos doentes (sim, Sarah, Elisa e Davi tiveram pneumonia. Foram dias de muito trabalho administrando medicações, lavagens nasais e nebulizações em todos, inclusive em meu pai e em mim, posteriormente). A ajuda deles foi essencial. Ter ajuda é uma bênção! E inclusive reconhecer as minhas limitações e a minha necessidade de ajuda é parte do que quero dizer hoje. É um sinal de maturidade. Reconhecer as minhas limitações tem sido um sinal evidente de que estou envelhecendo e, pela graça de Deus, amadurecendo. Quando paro pra pensar em minha trajetória pessoal, vejo que sempre tive altas expectativas a meu respeito e a respeito da vida que deveria viver. Cobrando-me para ser a melhor pessoa possível, eu me concentrava em ter uma performance perfeita. Tentando agregar algum valor à mim mesma, eu via um horizonte ideal e o perseguia com todas as minhas forças. Eu só esquecia de um pequeno detalhe: eu não era forte. Sempre me faltou umas boas doses de "semancol", como dizemos quando alguém pensa de si mesmo além do que convém. O jovem costuma ser assim. Ele acha que consegue superar todos os limites. Acha que consegue resistir a tentações que os pais dele não resistiram. Acha que é mais esperto e mais inteligente do que os seus antepassados. Acha que vai mudar o mundo com sua performance. Acha que é só querer pra alcançar. À medida que o tempo passa e as frustrações da vida vão revelando a realidade interior, por algum tempo o jovem se vê desesperado. (Quando digo "jovem", você sabe de quem eu estou falando. Acertou se pensou em mim mesma. Mas pode também ser o seu caso, não é?). "Eu sou um fracasso humano!", diz o jovem dando de cara com a sua própria natureza no espelho. É duro reconhecer que nada podemos fazer. É duro ver-se tão profundamente inadequado. É um misto de vergonha e desespero. Haveria grande motivo para tal angústia se não fosse exatamente para esse propósito que o evangelho de Cristo é revelado. Finalmente, depois de tantos anos me declarando como crente - e creio na sinceridade dessa declaração, mesmo tendo sido feita no orgulho dos anos de juventude, quando eu ainda achava que a vida cristã era sobre aquilo que eu fazia e não sobre o que Cristo fez na cruz -, sim, finalmente, entendi que o evangelho é a misericórdia de Deus estendida aos pecadores como eu. Finalmente, entendi que a minha condição de pecadora me desqualifica para toda e qualquer boa obra que eu planejasse fazer, e que até as minhas melhor obras eram feitas com uma raiz de orgulho e altivez. Percebi que, definitivamente, é somente pela graça abundante do meu Deus que eu respiro, abro os meus olhos e consigo fazer tantas coisas em um dia! Quando eu tinha somente uma filha, eu queria ser a mãe perfeita, e focava tanto na vida que eu queria ter e na pessoa que eu queria ser, que me sentia sempre paralisada. Eu planejava de A a Z, mas conseguia fazer muito mal o A. Eu me sentia derrotada, fracassada, desesperançada. À medida em que os demais filhos foram vindo, fui descendo os degraus do amor próprio até chegar ao fundo do poço e finalmente me deparar com quem eu realmente era e com aquilo que eu realmente era capaz de fazer: nada. Absolutamente, nada. Até o ar que eu respirava não estava sob o meu controle. Eu não fazia meu coração bater. Eu não fazia o sangue circular meu corpo. Eu não escolhia o ar que eu respirava e nem mesmo tinha controle sobre os cinco sentidos do meu corpo. Era tudo graça imerecida. Estou aqui segurando meu quarto bebê no colo (quarto bebê nascido) e pensando: que bênção que eu descobri a graça de não planejar mais de A a Z. Pelo contrário, eu planejo A, pedindo a Deus que me ajude e que me capacite e que me dê sabedoria força e vigor para servi-lo com alegria. Muitas vezes, Ele me permite realizar o A, apenas o A. As vezes, ele me permite realizar mais. E às vezes, Ele muda o rumo e me faz realizar B ou Z. Não importa. Eu estou aprendendo que a vida não é sobre mim. Não é sobre a minha performance. Não é sobre o quão longe eu correrei na estrada da vida e nem sobre meus atributos e qualidades. É sobre Ele. Por isso, não importa tanto como a minha casa estará ao final do dia, nem se a minha pia estará brilhando. Pouco importa se eu tenho muitas mãos a me ajudar ou se estou sozinha trabalhando em repetitivos serviços dia após dia. Não é sobre o que eu faço, mas com Quem eu caminho diariamente. Eu posso ser grata por tudo o que o Senhor me permitiu realizar hoje, mesmo que ainda tenha tanto a ser feito. A mãe que eu sou hoje já não se preocupa tanto com essas questões terrenas e passageiras. O trabalho da mãe não é do tipo que acaba. É do tipo que se renova a cada novo dia, com um propósito cada vez mais claro para mim: voltar meus olhos para a eternidade. Se onde abundou o pecado, superabundou a graça, também penso que onde o trabalho é infinitamente maior do que a nossa capacidade de realizá-lo, superabundou o sobrenatural do Deus que efetua em nós o querer e o realizar. É na nossa fraqueza que vemos a força do Senhor, e isso nos deve trazer plena alegria e satisfação. Quanto mais fraca me reconheço, mais eu creio na força do Seu poder. Quanto mais eu penso nEle, mais experimento aquilo que é invisível aos olhos carnais, mais experimento o anseio pelo que é eterno e incorruptível. Criar muitos filhos me ensina que eu não posso ter o controle de tudo, mas Deus está no controle, indubitavelmente. Criar quatro filhos é muito mais sobre confiança em Deus do que sobre ser forte o bastante para isso. Não é sobre ser capaz. É sobre reconhecer Quem é o único capaz. A escada da maturidade é uma descida. Quanto mais descemos em humildade, mais perto chegamos do Céu. Que o Senhor seja a sua força e que, aos Seus pés, todos os seus medos, orgulhos e fardos sejam depositados.
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